Um objeto de pensamento pressupõe algo abstrato e demanda um esforço cognitivo para ser compreendido. Diante desse fato, deve-se buscar a maior clareza possível em sua forma de expressão. No entanto, este é um grande desafio para quem escreve visando a um público específico, sobretudo quando se trata de temas de cunho filosófico, devido à polissemia e às ambiguidades sempre presentes na linguagem. Por essa razão, quem escreve buscando compartilhar alguma ideia deve, metaforicamente falando, deixar o caminho bem pavimentado e sinalizado para que seus leitores saibam de onde estão partindo e para onde estão indo.

Deve-se considerar, também, que o controle sobre a interpretação dos leitores sobre o que está sendo veiculado em um texto é muito limitado, daí a necessidade de se procurar a maior exatidão possível na expressão do pensamento, através da escolha dos termos apropriados. Além desse aspecto, deve-se obedecer aos critérios da unidade e coerência textuais, que são obtidos através de mecanismos que devem reger a construção dos textos. 

Na qualidade de eterno aprendiz desta arte, e com base no texto de Cossuta (1994), compartilho alguns elementos imprescindíveis para a construção dos mais diferentes tipos de textos. Vale salientar, no entanto, que este post é apenas uma introdução a um assunto muito rico. Obras inteiras já foram escritas sobre ele. Pretende-se, no entanto passar algumas "Dicas para uma boa escrita", a partir do estudo pessoal dos trabalhos produzidos na área.


1 TÍTULO E PROBLEMATIZAÇÃO

Aparentemente de menos importância na elaboração de um texto, o título a ele dado pode ou não atrair, por isto deve ser bem pensado e refletir de forma sintética o assunto que o autor se propõe a discutir.

Em seguida, vem a explicitação do problema que se pretende solucionar ou responder com o texto, também conhecido como “problematização”. Deve-se também deixar claro o “objeto e a perspectiva sob a qual o tema vai ser apreendido [...]”. (COSSUTA, 1994, p. 214). Esses aspectos vão ser responsáveis pela “unidade temática” do texto, ou seja, o mesmo tema deverá estar perpassando-o do início à conclusão.
  
2 MECANISMOS DE COESÃO TEXTUAL

Para a construção de uma argumentação coerente e coesa, a língua dispõe de outros mecanismos que devem ser conscientemente utilizados, tais como: a hierarquização do conteúdo; a auto-referência e a função metatextual, que ocorrem quando o autor esclarece e reflete sobre aspectos dentro do próprio texto, que dizem respeito à construção do objeto de pensamento. Deve-se construir “redes de referenciação intratextual.” (COSSUTA, 1994, p. 221), visando a proporcionar ao leitor recapitulações e antecipações, mantendo-o situado. Este procedimento proporciona ao texto a necessária coerência e continuidade discursivas, imprescindível em quaisquer textos, sobretudo filosóficos.

Dentre os mecanismos que asseguram essa referenciação estão: as substituições e as remissões. As primeiras asseguram a compreensão “microcontextual”, ou seja, remete o leitor ao que foi dito em passagens anteriormente  próximas a que está relendo, como pronomes relativos e demonstrativos, também chamados de “elementos de ligação”; as segundas asseguram a compreensão “macrocontextual” que é a situação do leitor no contexto geral da obra que está sendo lida, resgatando e dialogando com conceitos trabalhados alhures.

Parece muito simples, mas nem tanto. Para o domínio desses mecanismos no processo de escrita se faz necessário, primeiro, a consciência de sua existência e importância, e, segundo, muita leitura e escrita. Esta é a orientação áurea dada a todos que desejam escrever bem. Abraços e até as próximas dicas!



REFERÊNCIAS E CRÉDITOS


COSSUTTA, Frédéric. Elementos para a leitura dos textos filosóficos. São Paulo: Martins Fontes, 1994

 Foto Ilustrativa - Tradutor Iniciante