Pausa


Por Mário Quintana

       Quando pouso os óculos sobre a mesa para uma pausa na leitura de coisas feitas, ou na feitura de minhas próprias coisas, surpreendo-me a indagar com que se parecem os óculos sobre a mesa.
       Com algum inseto de grandes olhos e negras e longas pernas ou antenas? Com um ciclista tombado?
Não, nada disso me contenta ainda. Com que se parecem mesmo?
E sinto que, enquanto eu não puder captar a sua implícita imagem-poema, a inquietação perdurará.
  E, enquanto o meu Sancho Pança, cheio de si e de senso comum, declara ao meu Dom Quixote que uns óculos sobre a mesa, além de parecerem apenas uns óculos sobre a mesa, são, de fato, um par de óculos sobre a mesa, fico a pensar qual dos dois – Dom Quixote ou Sancho Pança? – vive uma vida mais intensa e, portanto, mais verdadeira.
             E paira no ar o eterno mistério dessa necessidade da recriação das coisas em imagem, para terem mais vida, e da vida em poesias para ser mais vivida.
  Esse enigma, eu o passo a ti, pobre leitor.
  E agora?
 (1906 - 1994)
  Por enquanto, ante a atual insolubilidade da coisa, só resta citar o terrível dilema de Stechetti: “Io sonno un poeta o sonno um imbecile?”
  Alternativa, aliás, extensiva ao leitor de poesia ...
             A verdade é que a minha atroz função não é resolver e sim propor enigmas, fazer o leitor pensar e não pensar por ele.
            E daí?
— Mas o melhor — pondera-me, com a sua voz pausada, o meu Sancho Pança —, o melhor é repor depressa os óculos no nariz.

In: A vaca e o   hipogrifo. São Paulo, Círculo do Livro.

          



[1] “Eu sou um poeta ou um imbecil?”

Nenhum comentário:

Postar um comentário