Há momentos em que nos sentimos à deriva, em um mar de sentimentos, que vêm em ondas encapeladas e ameaçadoras. Sentimo-nos como um barco no meio
de uma forte tempestade tropical, e, ao mesmo tempo, como os próprios
tripulantes.
Olhamos para os céus e
só conseguimos enxergar nuvens escuras, e uma chuva caindo com fúria torrencial.
O açoite das ondas é implacável e constante, não conseguimos nos equilibrar. A
noite, mais escura que o habitual, lá distante,
é cortada por raios, que iluminam também o barco com o seu clarão.
Porém, não há o que fazer. Só resta
esperarmos que tudo isso passe, que o sol volte a brilhar no céu azul, cheio de
nuvens amenas e o azul do oceano volte a nos encantar e nos convidar (ou seria
desafiar?) a continuarmos a navegar.
Tem sido assim. Vez ou
outra essas tempestades caem furiosas e sempre achamos que é a última em nossas
vidas. Aí, de repente, tudo volta à calma. A bonança nos traz de volta o sossego. O desespero é
substituído por esperança e pelos planos.
A tempestade, de certa
forma nos remete ao passado, como aquela estória que dizem que quando estamos à
beira da morte um filme de nossas vidas começa a passar em nossas mentes. Uma
espécie de saudade mesclada com arrependimento de não termos feito e dito
tantas coisas que poderíamos e deveríamos; de não termos visitado ou, pelo
menos, dado um alô às pessoas queridas. Um frio diferente perpassa nosso corpo,
aquele friozinho na barriga pela perspectiva de não haver o regresso e pela
angústia da incerteza quanto ao futuro. É incrível, mas no meio de todo esse
sufoco, conseguimos ter flashes assim, em pleno desespero pela sobrevivência.
Um porto seguro é a
imagem que mais gostaríamos de ver nesses momentos. Só que em momentos assim
falham todos os equipamentos de direção e de comunicação. Ficamos, como já
disse, à deriva. Tudo pode acontecer, desde afundarmos, a irmos de encontro a
arrecifes perigosos e sobrarem apenas destroços. Manter a calma seria a coisa
mais sensata a fazer, porém, uma das mais difíceis.
Mas o barco tem resistido ao longo desses anos e os
tripulantes têm si tornado mais experientes e audazes. A vida, esse mar que nos
surpreende em meio a tantas tempestades, também nos presenteia com paisagens
fascinantes e nos permite também extrair riquezas tantas. Que é, ao mesmo
tempo, nossa fonte para a existência e nossa sepultura. Apesar de tudo,
realmente vale a pena viver. Que venham as tempestades. Lutaremos pela vida que
não é só bonança.
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