Apenas um rosto bonito?


Um dia desses, remexendo minha estante à procura de um livro, encontrei uma revista que me chamou a atenção. Sua capa trazia um belo rosto de mulher caucasiana. Era aquele típico rosto das musas dos filmes de Hollywood; um padrão de beleza ocidental-europeu: nariz delicadamente afilado, porém sem aquele excessivo arrebitamento peculiar; olhos verdes que me premiaram com um olhar suave, quase melancólico, como um convite ao diálogo; lábios finos, porém, bem desenhados, estavam destacados por um batom de um vermelho discreto e esboçavam um sorriso meigo e amigo. Sua pele clara definia um contraste sutil com o vermelho de seus lábios e das maçãs do rosto; possuía um queixo bem delineado como se fora talhado por um talentoso escultor; cabelos claros com um penteado simples, presos para cima, em forma de “totó”, porém, levemente soltos, permitindo que seu belo rosto ficasse à mostra, podendo-se, inclusive, notar-lhe os brincos tipo correntinhas com duas bolinhas nas extremidades da cor de prata.

Em meio a esse meu embevecimento, em um momento quase que hipnótico, vieram-me à mente alguns questionamentos, que, às vezes, deixamos de fazer por estarmos inebriados com a beleza física. Não conhecia aquela mulher e, apesar do impacto visual positivo, não conhecia detalhes sobre ela. Quais seriam os pensamentos que povoavam sua mente, se bons ou maus. Como não podemos entrar na mente das pessoas, principalmente quando estamos diante apenas de uma foto, só podemos levantar hipóteses.

São muitos os exemplos de lindas mulheres infelizes. Que vivem uma vida amargurada, dependentes de drogas para conseguirem conciliar o sono. Que vivem uma constante luta com seus pensamentos sem conseguirem desvencilhar-se dos mesmos. Algumas chegam ao absurdo de acharem-se feias, quando o mundo todo desejaria cair a seus pés reverenciando sua beleza.

Como todo ser humano ela certamente tem suas próprias preocupações. É bem provável que se preocupe com o avanço sutil da idade. Com as pequenas rugas que já começam a aparecer, ameaçando-lhe a plasticidade do rosto. São muitas horas no espelho, gastas, apreciando os pontos fortes e procurando possíveis falhas. São muitas horas em salões de beleza, investindo um dinheiro considerável com a manutenção dessa beleza. Uma “gorda” conta bancária não pode deixar de ser o interesse de uma mulher como essas, que, certamente, vive no conforto de um apartamento ou de uma bela casa. Que também precisa de secretárias para fazer as tarefas domésticas. Sim, porque ela precisa manter sua aparência. Afinal de contas é o seu instrumento de trabalho.

Por outro lado, ela bem pode ser uma mulher indefesa e pacata, ou agressiva e violenta, apesar da doçura do sorriso e do olhar. Seu ciclo de amizades bem poderia ser aquele das estrelas de Hollywood, onde supomos que reina a hipocrisia e as segundas intenções, falsas amizades que costumam ser construídas sobre um alicerce do poder aquisitivo. Talvez tenha amigas sinceras que compartilham dos mesmos sonhos e ambições e que podem muito bem ser suas confidentes, com quem ela pode desabafar suas mágoas.

É possível também que possua muitas feridas sentimentais, algumas já cicatrizadas, outras ainda abertas, de amores tantos, que lhe apareceram na trajetória da vida, trazendo consigo promessas de amor eterno, porém, que logo se foram deixando suas marcas doloridas.

Não poderíamos deixar de comentar sobre seus parentes. Não sei se possui uma família natural, ou se cresceu em um orfanato e conseguiu, por capricho do destino, despontar dessa forma para a vida, a ponto de tornar-se capa de revista. Se possui parentes e os conhece e por eles é conhecida, é possível que tenha uma relação tumultuada por causa do seu temperamento irascível e estilo de vida. Por outro lado não se pode descartar a possibilidade de ter uma família feliz e que convivam em perfeita harmonia. Que sejam orgulhosos por terem uma representante tão importante.

Como se comportaria o marido de uma mulher como essas também é uma reflexão a se fazer. Dependerá muita da cabeça desse homem. Com uma mulher tão bonita, é possível que fortes cenas de ciúmes tome lugar constantemente. Certamente que não lhe faltam cortejadores ansiosos por tocá-la, beijá-la, tê-la para si. Mas se há confiança mútua, com certeza esse ciúme não terá lugar.

Dessas elucubrações, pode-se concluir o óbvio: não se pode julgar o caráter ou a personalidade de uma pessoa apenas por sua aparência física. Essas conclusões podem estar completamente equivocadas. Portanto, a vivência lado a lado, dia após dia é o que verdadeiramente permite descobrir quem as pessoas verdadeiramente são e, mesmo assim, não em sua totalidade, posto que elas sempre estão nos surpreendendo, tanto positiva quanto negativamente.



DLS/ JPB – 17 de novembro de 2005

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