A Intuição poética

                Ao ler a dissecação de um poema, percebi que o processo de interpretação, via de regra, parte do pressuposto de que o poeta engendrou sua criação dispondo os recursos literários de forma previsível, intencional (pelo menos para ele), quase matematicamente.
Que isso seja plenamente possível é um fato; e é feito com regularidade. Mas uma coisa me intriga: a sensação de  que a poesia (e aqui incluo poemas, sonetos, baladas, e outros) nasce como nasce a música. Ela simplesmente acontece. Ela chega, às vezes completa, às vezes não, mas raramente é planejada.
Essa intuição acontece também na música. Por essa razão músicos que nunca estudaram partitura, nem teoria musical, nos brindam com belíssimas composições. A melodia vai sendo "dada" ao músico, e as "frases" melódicas vão se compondo, gradualmente, naquele momento de inspiração.
Assim é a poesia. Se assim não fora não teríamos músicas maravilhosas produzidas por pessoas sem nenhum conhecimento de teoria musical e poesia fabulosa saída do coração de pessoas que não têm o mínimo conhecimento de teoria literária.
Portanto, meu entendimento é de que, apesar de muitos poemas serem engendrados conscientemente, a regra é que eles surgem como a música. Vem o insight e as frases fluem naturalmente.
No entanto, a leitura atenta em busca de significados faz parte da interpretação da boa poesia, afinal, o poeta tem uma mensagem a passar. Porém, sentir o poema, assim como a música, é muito mais gratificante do que dissecá-lo.


João Pessoa, 06 de março de 2008.

Nenhum comentário:

Postar um comentário