Certa feita, cedo de
manhã, durante a higiene pessoal, impressionei-me
quando vi no espelho o reflexo de um rosto marcado por rugas de uma noite mal dormida.
Aquela imagem dava-me mostras de quanto tempo já vivera. Fiquei pensativo.
Exclamei no meu íntimo, em tom de brincadeira e aproveitando para treinar um
pouco meu inglês: “I’m getting old!”, ou seja, “estou ficando velho!”. A tomada
das atividades diárias me fez esquecer aquela cena.
Dias depois,
subitamente, a cena me veio à mente outra vez. Comecei a refletir, e a me indagar:
Quando, pela primeira vez, o homem contemplou sua própria imagem? Quem sabe,
talvez ao inclinar-se para beber e surpreender-se com sua imagem no “espelho”
d’água? Ou diante de uma pedra polida, talvez de mármore, pela própria
natureza? Essa primeira vez e condições certamente estão perdidas em um passado
remoto. Porém, que impacto essa visão deve ter-lhe causado! Até então o ser
humano só conseguira ver a face dos outros seres humanos? Teria sido um susto
ou fascinação? Quem seria aquele “outro” refletido?
Os livros
de história contam-nos o fascínio causado por espelhos aos nossos nativos, que
por eles trocavam bens muito mais valiosos. Assim como a descoberta do fogo,
que, certamente foi acidental, também a descoberta do espelho foi sendo
aperfeiçoada gradativamente até se obter espelhos que refletissem com a maior
fidelidade possível o rosto humano. Que sensação o homem passou a sentir quando
se acostumou a ver-se refletido nesse objeto! Que sensações sentimos a nos
deparar conosco mesmos? Certamente são diversas, dependendo das pessoas e das
circunstâncias.
As mulheres,
por exemplo, são admiradoras incontestes dos espelhos, ou será que admiram-se a
si mesmas? É um apetrecho indispensável em uma bolsa feminina. É interessante
notar como elas não resistem ao hábito de sempre se olharem ao espelho! Se
param diante do semáforo, lá vai a mão na direção do retrovisor para ajustá-lo
e dar alguns retoques na maquiagem ou nos cabelos. Como estão preocupadas com a
aparência! Mas não falo assim censurando-as ou criticando-as. Na verdade, além
do ímpeto natural do amor próprio e da autopreservação, está a cobrança da
sociedade que tende a valorizar mais a aparência em detrimento da essência. Os
homens, por outro lado, são mais moderados ao espelho. É verdade que alguns
fogem a essa regra. Por quê somos assim, não o sei.
O que vejo ao olhar-me
ao espelho? A mim mesmo? Minha imagem refletida de forma assimétrica, me diz
realmente que aquele ali sou eu? Percebo que os anos moldaram-me fisicamente. O
meu aspecto já não é o mesmo de alguns anos atrás, estou começando a me ver “um
senhor de idade”. Algumas rugas sutis já começaram a si instalar.
Rugas são
marcas deixadas pelo tempo. Todavia, o tempo e a vida nos deixam marcas que os
espelhos não refletem. Nem mesmo eu consigo divisá-las em minha imagem
refletida. A imagem no espelho me lembra um bumerangue, que, lançado ao longe,
retorna depois de uma trajetória curvilínea, para nós. É como se o espelho
estivesse me devolvendo a mim mesmo.
Chega um tempo
em nossas vidas em que a utilidade do espelho não se limita à produção de nossa
aparência externa, como penteados, roupas...
Passa a ser um lugar de reflexão. É como se ele estivesse falando para
nós: “olha para ti mesmo!”. É o momento em que podemos olhar nos nossos
próprios olhos! É bom olharmo-nos assim, nos próprios olhos. Alguém já disse
que os olhos são as janelas da alma. Olhar-me ao espelho com esse olhar de
reflexão, vai me conscientizar de que o tempo é implacável e que envelhecemos a
cada dia. A velhice é teimosa! Então, você, eu, somos simplesmente aquele
reflexo?
Devemos aproveitar para olharmos através das janelas
de nossas almas e divisar as marcas deixadas pelo tempo. Perguntemo-nos “O que
o tempo fez e ainda está fazendo em mim e de mim?”. Que sensação você sente? Foi divagando assim, que me convenci de que, ao
final, meu amigo, o que prevalece são os valores do espírito, que nunca
envelhece, mas que amadurece e se enriquece à medida que o tempo passa. Li
certa vez alguém comentando sobre o caráter de um grande líder, que à medida
que o tempo passava, ele se tornava cada vez melhor, como o bom vinho
envelhecido nas condições apropriadas.
Se eu me detiver na imagem que está ali no espelho, se eu me limitar àquele reflexo, possivelmente vou me frustrar. Se, todavia, eu conseguir mirar-me a mim mesmo nos olhos, poderei vasculhar minha alma e encontrar os valores eternos que o tempo me repassou, muitas vezes a duras penas.
Se eu me detiver na imagem que está ali no espelho, se eu me limitar àquele reflexo, possivelmente vou me frustrar. Se, todavia, eu conseguir mirar-me a mim mesmo nos olhos, poderei vasculhar minha alma e encontrar os valores eternos que o tempo me repassou, muitas vezes a duras penas.
O reflexo no espelho é a imagem física e fiel que as
pessoas vêem. Mas, até mesmo aí somos vistos com olhares diversos. O que pensam
de nós quando nos vêem? É aí também que constatamos o quanto a sociedade em que
vivemos é injusta e equívoca, mesmo quando nos atribui valores positivos, porque, muitas
vezes não correspondem à realidade. Por mais que nos sintamos lisonjeados, lá
no íntimo, ao olharmo-nos nos nossos próprios olhos, vamos reconhecer o
equívoco. Nesse sentido, alguém observou que em cada um de nós existem três
pessoas: aquela que as pessoas pensam que nós somos, aquela que nós mesmos
pensamos que somos, e, aquela que realmente somos! E esta nem sempre queremos
aceitar, sobretudo se apresentar “defeitos”.
O espelho é a hora da verdade, da nossa verdade. Ali
sou eu e eu, você e você! É lugar de reflexão. O velho filósofo na entrada de
sua Academia escreveu: “conhece-te a ti mesmo”. Paulo, o escritor bíblico,
também lançou mão desse mote. Mas, como é difícil, que tarefa árdua! Contraditoriamente
ofuscamos esse conhecimento assumindo outros “eus” que não o nosso próprio. Na
verdade muitas vezes nos tornamos nossos próprios inimigos quando não
reconhecemos nossas próprias debilidades e as nossas próprias virtudes. Então
passamos a encobrir as falhas sem consertá-las, e a esquecermo-nos de nossas
virtudes sem cultivá-las. Passamos a viver a virtude de outros, e isto não é
virtude, e isto não é viver, é fingir!
Por outro lado, temos que ter o cuidado de não nos
fascinarmos com o que virmos e deixarmos a paixão egoísta nos enlaçar e
morrermos afogados nas águas profundas e traiçoeiras do nosso amor próprio,
como aconteceu com Narciso.
Não sei que imagem você verá refletida, mas, seja qual for, lembre-se que, se for boa, agradeça
a Deus, pois, segundo as Escrituras Sagradas, “todo dom perfeito vem do alto,
descendo do Pai das luzes”, procure então melhorá-la. Se for ruim, paciência, o
que foi feito, foi feito. Aprenda a se perdoar, ainda há tempo. Procure tirar
sempre uma lição positiva. Saiba que no livro mais lido do mundo há uma
declaração animadora: “Aquele que confessa e deixa, alcança misericórdia”.
Pense nisto na próxima vez que se olhar ao espelho.
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